
Por Jose Joacir dos Santos
A memória não é um privilégio dos seres humanos. Tudo no Planeta Terra tem memória. O que varia é a natureza da memória. Há alguns dias vinha pensando neste assunto depois de abrir ao acaso o Evangelho Segundo o Espiritismo, na página em que recomenda rezar pelos inimigos já falecidos. Quem chamou a minha atenção para isso foi minha gata Jiny. Todos os dias quando chego do trabalho saio com ela para o jardim. Não a deixo sair sozinha porque ela pode querer se aventurar para o outro lado da cerca. Antes de adotá-la, ela tinha vivido muito tempo na rua, até ser resgatada e castrada por órgãos civis. Depois que a adotei, ela passou cerca de seis meses correndo e se escondendo dentro de casa. Deveria estar acessando, sem parar, as memórias do sofrimento com quem conviveu antes de mim ou na rua. Como teria certeza de que não estava no mesmo barco? Não deixava ninguém se aproximar. Aos poucos foi ficando mais calma, mas, mesmo assim, depois de dois anos de convivência, ela ainda se espanta e tem medo de barulhos, ruídos, trovões e chuva. Tímida, já pede carinho, com a voz meio rouca. Nos primeiros seis meses na nova casa, Jiny tremia quando dormia, soltava ruídos, parecia sonhar. Hoje ela já sabe que pode correr para casa.
Seu pelo negro é muito denso, deve coçar muito. Cheira todas as plantas do jardim, aprecia as flores. Há um canto em que ela rola no chão, na terra. Mas o momento em que a minha atenção se intensificou foi quando começou a cair pingos de chuva. Ela olhou para o céu e correu para a porta da casa. Eram pingos muito fracos, mas ela não pensou duas vezes. Deve ter se lembrado das chuvas que enfrentou quando vivia na rua e aqui onde vivemos as chuvas são torrenciais e causam enchentes. Gato já não se dá muito bem com água, imagine com chuva forte. Mas, quando eu tentava colocar a coleira para passear, ela se congelava toda, não se movia. Talvez a coleira trouxesse também uma péssima memória. Será que ela se recorda do sofrimento que passou na rua e encara os envolvidos como inimigos do passado? A maioria dos nossos traumas e medos está relacionada ao passado: pessoas, lugares, coisas, objetos, situações, agressões físicas, mentais, emocionais e espirituais.
Aquele ditado segundo o qual quem bate esquece, mas quem apanha jamais esquece continua verdadeiro. Aquela página do evangelho sugerindo que eu rezasse pelos inimigos já falecidos engloba também aqueles que sequer cheguei a saber que eram meus inimigos. E aqueles de centenas de anos que continuam ainda sem acessar a luz? Para os negacionistas, tudo acaba com a morte do corpo físico. Sabemos que isso não é verdade. A literatura universal, em vários idiomas, reafirma o mesmo pensamento: nada acaba com a morte, só o corpo físico. O indivíduo acostumado com as injustiças da terra, onde quem vence é quem tem o poder e o dinheiro, pode se frustrar completamente já no momento do falecimento, quando o filme de sua história conhecida, ignorada ou negada projeta todas as imagens, em detalhes, na sua mente, agora sem o corpo físico. Agora não há padrinho, ideologia, partido político, dinheiro nem fortuna. O filme é para todos, cada um tem o seu, sem censura, sem cortes, a verdade nua e crua. Mesmo que o corpo tenha sido cremado, o fogo não alcança o que já foi gravado no corpo espiritual e mental, que seguem em frente na roda do Carma.
Enquanto em vida, a memória do sofrimento permeia os corpos físico, mental, emocional e espiritual. A vítima é destroçada. A saúde é completamente abalada. Surge uma doença após outra, dependendo da intensidade da causa. Quem causa o sofrimento tem seus momentos de prazer e glória. As amarras do mundo físico criam uma névoa visual e mental fazendo com que a pessoa deixe de se lembrar o que causou. Mas, seus próprios corpos se lembram de tudo. Tanto o corpo de quem causa sofrimento como o da vítima. A dor, ou a memória dela, cria caminhos psicossomáticos que vão causar sofrimentos físicos e doenças. Mas, nada se compara ao que acontece quando o agressor morre e de depara com o filme da própria vida, onde ele não tem poder de apagar nada a não ser através do perdão de quem sofreu e carrega a memória daquele sofrimento. E o filme não pára de rodar. É também o caso dos suicidas. A cena do suicídio rola sem parar atormentando o próprio suicida.
Por outro lado, você pode se deparar, em sonhos, com agressores pensando que estão vivos e tentando lhe amedrontar, agredir, fazer você acordar com taquicardia, noite após noite. Eles podem até mudar de aparência, mas são os mesmos indivíduos. Claro, alguns deles sequer sabem o que está acontecendo de verdade, mas estão causando ou tentando causar a repetição do sofrimento em suas vítimas. Há os que aparecem em sonho para pedir perdão, mas são raros. Isso depende do nível de merecimento individual.
Naquele filme também estão os sentimentos de culpa. E tudo se complica quando a realidade cruel é que os envolvidos estão em dimensões diferentes e distantes da realidade e de memória. Há a memória do sofrimento individual e há a do coletivo (nacionalidades, raças, religiões, chefes, políticos, governantes etc.). Quem causa sofrimento coletivo deveria saber que tudo está sendo gravado na eternidade. Então rezar pelos inimigos que já faleceram é um ato de amor, bondade, perdão. Não precisamos lembrar nomes, lugares, situações e coisas. Simplesmente rezar, em voz alta, pelos inimigos falecidos. Sim, rezar pelos inimigos conhecidos e desconhecidos ainda vivos, lado a lado no seu trabalho, na vizinhança, onde quer que esteja é, também, uma tarefa que devemos executar diariamente. A gente nunca sabe ao certo… Na dúvida, rezar! Jesus foi perseguido, diariamente, desde a tenra infância até o ato da crucificação. Rezemos…
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04/04/2026
