Por José Joacir dos Santos,
A região em que nasci era abundante em cactus. Sem poluição alguma, era como se fosse uma fazenda de cactus que enchia a mata de flores e frutos, onde os pássaros faziam a festa da abundância. Eram irresistíveis aqueles frutos avermelhados, quase roxos, expostos ao sol da manhã. A mãe não queria que os filhos saboreassem aqueles frutos e a palma era usada em pequena escala para os animais porque não havia conhecimento sobre os efeitos medicinais e se eram comestíveis. Mas, a curiosidade infantil daquele menino de chinelos de borracha, com um cajado na mão para se defender das cobras, seguia os pássaros, abelhas e borboletas. Se eles comiam, por que ele não poderia saboreá-los também?
Felizmente a educação universitária chegou, nos dias de hoje, ao sertão nordestino, rico em minérios, plantas, frutos exóticos e medicinais. Hoje sabemos que o mandacarú (Cereus jamacaru) é anti-inflamatório, analgésico, as raízes e as partes do caule servem para amenizar sintomas da gastrite, doenças respiratórias, problemas estomacais, saúde da pele, é rico em substâncias antioxidantes que combatem radicais livres e protegem as células. O trato do mandacarú, para a retirada dos espinhos, já é do conhecimento popular. A palma é hoje encontrada na sessão de vegetais e frutos dos supermercados mexicanos e americanos, devidamente embalada, e congelada. Infelizmente comerciantes brasileiros ainda tratam cactus como objeto de decoração e ele é exposto na sessão de plantas ornamentais.
O mandacarú beneficia animais e humanos porque hidrata e retém a unidade. Tem ação calmante, anti-inflamatória, antioxidantes, regenerativo e cicatrizante da pele. É bastante usado na culinária e na feitura de sucos verdes. Devidamente tratado, pode ser adicionado ao cozimento de arroz, às saladas etc. O ideal é colher brotos da palma mais verde, nova e fresca. O fruto pode ser usado inclusive para licores, bolos, doces, geleias, sorvetes e remédios caseiros. A polpa pode ser congelada. Os remédios caseiros e do conhecimento popular são extraídos das raízes ou partes do caule, tradicionamente usados para tratar problemas renais, tosse, bronquite, diabetes e distúrbios digestivos. De extrema importância ecológica, cactus protege a terra e os animais na época da seca, além de guardar água e atrair chuva.
Há diversos tipos de cactus no sertão nordestino. Aquele que contém uma espécie de latex leitoso não deve ser consumido por humanos e animais. A coroa de frade (Melocactus) é maravilhosa. Geralmente tem o formato redondo e produz pequenos e delicados frutos avermelhados e doces. Geralmente morre em lugares úmidos e jardins. O tipo facheiro (xiquexique founellei, antigo Pilosocereus), também comum no nordeste brasileiro, produz frutos doces, avermelhados quase roxos.
O ideal é colher os frutos cedo da manhã e não consumir aqueles que já foram beliscados por pássaros. O bom do cactus é que pode ser consumido o ano inteiro, não somente na época da seca, quando eles parecem estar mais vivos do que nunca. Fazendeiros nordestinos já sabem que os espinhos devem ser retirados daquele cactus destinados a animais e que devem ser colhidos no mesmo dia do consumo ou no próximo dia. Não deve ser armazenado por longo tempo. Mas, para o consumo humano, pode ser congelado.
Infelizmente, a famosa cesta básica, que tem prestado um grande serviço ao povo nordestino, é um impedimento para o combate à dependência do povo dos insumos governamentais. O povo está ficando viciado em cesta básica e começa a deixar de olhar para os próprios recursos, muitas vezes existentes nas suas próprias terras. O cactus poderia se tornar uma importante fonte de renda já que é abundante, multifacetado e serve de remédio e de alimento.
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em 24/08/2026
