
Por José Joacir dos Santos (*)
Assim como cada ser humano que nasce na terra tem uma (ou mais) missão, todo ser vivo também tem, inclusive as plantas. Todas elas são sagradas e entre elas tem as mais sagradas. Tem as medicinais e as mais medicinais. Muitas delas receberam a incumbência de servir às necessidades humanas, como peixes. Há peixes e plantas que quando ouvem alguém murmurar que vai matá-los, eles já morrem. Há as plantas que morrem no momento certo, para a função certa, e há aquelas que são arrancadas e impedidas de cumprirem suas missões. São as vítimas das motosserras, da ganância, da maldade humana que ainda está muito arraigada.
Todos os continentes, exceto aqueles cobertos de gelo, possuem árvores sagradas e elas possuem grande significado cultural, espiritual e ecológico para seus povos. O Brasil já nasceu predestinado a ser o guardião das florestas desde a sua ocupação pelos exploradores estrangeiros. Sem acreditar no que estavam vendo de tão farto e belo, eles fizeram uma imediata conexão entre a terra e as árvores e lhe deram o nome de Brasil. Hoje temos que lutar para que o que resta das florestas e recursos naturais, inclusive as terras raras, não sejam, mais uma vez, entregues a estangeiros.
A imprensa estrangeira noticiou em setembro de 2026 que carradas de ouro continuam a ser extraídas e levadas para fora do Brasil, sem controle algum, e isso significa que milhares de riachos, nascentes de água, terras férteis foram contaminadas e milhares de árvores derrubadas e mortas pela criminalidade, nacional e estrangeira. O país precisa ter coragem para acabar com isso e pensar nas gerações futuras. Por outro lado, árvore caída significa menos chuva e destruição das terras férteis.
Imagine quantas aves, insetos e uma imensidão de animais silvestres morrem por causa da mineração ilegal na Amazônia. Agora imagine a Esplanada dos Ministérios, em Brasilia, arrodeada de ipê-roxo nos seus tons de roxo profundo, lilás, magenta e rosa intenso; as casas de beira de praia na costa Atlântica sendo derrubadas para o plantio de coqueiral, como era no início; os indígenas e os moradores antigos da Amazônia sendo empoderados e treinados como guardiães das matas e das fronteiras da imensa selva amazônica; Imagine a fitoterapia sendo matéria obrigatória do ensino secundário; as farmácias vivas do SUS por todos os cantos do Brasil.
Muitos assuntos só são tratados quando há conveniência. Em 2007, quando fazia a pós-graduação em Fitoterapia, tive muita dificuldade de encontrar pesquisas e dados, inclusive da Região Nordeste, que tanto reclamava de secas, mas não pensava em plantar árvores. A politicagem usava a seca como fonte de votos nas eleições. Quanto mais seca mais promessas que nunca se realizavam. Em 2026, canais de irrigação, puxando água do Rio São Francisco, são festejados pelas populações. Não vi ninguém plantando árvores ao redor deles… Aqueles canais passam por terras onde talvez seja possível encontrar árvores antigas, guardiães do semiárido e do sertão. Uma delas, que ouvi falar desde a infância, é a Umburana, que nasce onde Deus quer, ninguém se preocupa em plantá-la… Em 10/setembro/2026, fiz uma pesquisa na internet sobre a Umburana e o resultado foi esse: “Não existe um número oficial ou um registro exato de quantas fazendas ou plantações de umburana (ou imburana) existem no Nordeste, pois a exploração dessa árvore na região ainda é predominantemente extrativista”. Que vergonha, né!
Fora aquele saber cheiroso que a Umburana dá ao barril da cachaça, a árvore tem várias propriedades medicinais: O chá e o xarope da casca ou das sementes ajudam contra tosse, bronquite, asma, gripe e resfriados; aliviar dores reumáticas e inflamações; popularmente usada para tratar dor de barriga e má digestão. O que dizer do Umbuzeiro, do Juazeiro, da Barriguda, da Carnaúba e tantas outras mais… Imagine se a gente for listar as árvores guardiães de cada região, muitas em extinção! Muitos produtores de cachaça nordestina compram barris secos, usados e importados da Europa …
Este pequeno artigo é só uma pincelada cosmética muito pequena. O assunto é vasto e o Brasil ainda é rico em biomas. As florestas brasileiras têm muitos perseguidores, inclusive alguns bem silenciosos: as editoras. Quando buscava editora para publicar o meu livro Ervas Medicinais para o corpo, a mente e o espírito, uma editora me respondeu que “ninguém compra livro sobre ervas”. Mas elas adoram publicar autores estrangeiros pouco interessados na rica diversidade brasileira. Os livros ganham capas maravilhosas, coloridas… Que vergonha, né! (*) fitoterapeuta.
joacirpsi@gmail.com
em 10/09/2026
