Por José Joacir dos Santos
Livros antigos dizem que os melhores artesãos na Ásia eram os nepaleses. Eles eram levados até para construir e decorar templos por toda a Ásia. Isso pode ser visto nas inúmeras lojas de objetos sagrados do budismo e do hinduísmo em Kathmandu, Nepal. Nas mesmas lojas onde são vendidos os objetos mais antigos, originais, feitos no Nepal, são oferecidos os de fabricação nova, feitos na China ou na Índia. Mas há uma grande diferença entre eles, a qualidade. Depois que o Nepal se tornou um grande polo turístico e as portas da China foram abertas para o comércio internacional, seus cidadãos passaram a copiar tudo para vender e estão ficando milionários. O mundo inteiro quer comprar objetos religiosos oriundos do budismo e a internet facilita. Até objetos da igreja católica são fabricados na China ou na Índia.
Não podemos culpar os chineses pela má qualidade dos produtos religiosos vendidos. A revolução comunista varreu o conhecimento antigo. Os objetos não são mais fabricados com a cerimônia dos templos nem com a dedicação do artesão. São produtos comerciais, para a venda em larga escala. Há inúmeros sites que vendem produtos da cultura Budista e entregam no Brasil.
Para quem não conhece o objeto sagrado Vajra, usado tanto no budismo quando no hinduísmo, achá-lo em lojas, barato, é até emocionante. Mas não é, são imperfeitos. A sabedoria foi perdida pelas gerações. Todo país que entra em guerra perde. Parte do conhecimento se vai com quem morre. Na região do Nepal, a juventude, influenciada pela cultura ocidental, não quer mais trabalhar com a família na produção de objetos de uso religioso. Aos poucos, comerciantes vão comprando as cópias feitas na China ou na Índia. As melhores copias, ainda feitas pelas famílias tradicionais, se encontradas, são caras e raras, mas são perfeitas.
O Vajra não é apenas para decoração. É usado todos os dias no Tibete e em mosteiros do mundo inteiro. É um objeto de poder. Duro como o diamante, o Vajra (ou dorje para os tibetanos) simboliza a verdade inabalável e a força espiritual; é também chamado de “raio de diamante”.
O exemplo em anexo neste artigo parece perfeito e o vendedor me garantiu que era original. Mas não é. A começar pelas duas pontas em cada extremidade. A estrutura vai de ponta a ponta, passando pelo meio do objeto para funcionar como “corredor” energético. O Vajra original é completamente decorado com imagens e símbolos sagrados, cada um com sua função e significado. As pontas têm a forma piramidal como se fosse um diamante. Quando o monge segura esse objeto e puxa a energia universal, ele vai esquentar porque para a espiritualidade isso é um objeto de multiplicação da energia de que o usa e tem uma finalidade clara. O exemplo da foto não tem nada disso. Parece, mas não é. Quem o fez não tem a sabedoria repassada de geração para geração. A fábrica apenas pensou em ganhar dinheiro com um objeto para turistas. Assim também encontramos tigelas tibetanas, sinos etc. Eles decoram com símbolos do budismo para parecer original, vindo do templo. Mas é tudo comércio para turista.
O Tibete não foi só ocupado. Ao longo do tempo, a indústria global usa seus objetos culturais e religiosos para falsificá-los ou fazer cópias baratas para lucrar, mesmo que a cópia não reproduza o efeito do original, como é o caso. Um objeto falsificado não tem poder algum. Serve apenas para decoração. É como uma pessoa não-iniciada fazendo celebrações. O metal utilizado neles pode não ter a pureza necessária como o cobre puro, o latão.
O Vajra é um objeto de interação com a dualidade. Representa o equilíbrio, a união entre compaixão e sabedoria. Simboliza essencialmente o estado de iluminação — ou de Budicidade — como mente-Vajra: impenetrável, inamovível, imutável, indivisível e indestrutível. É comumente utilizado junto com o sino. É usado em rituais e meditação para canalizar o empoderamento e transmutar a energia negativa. Quando acionado pela pessoa certa, ele corta a ignorância e abre caminho para a consciência/ascensão.
“Como o cetro adamantino de divindades pacíficas e a arma indestrutível de divindades coléricas, o Vajra simboliza o princípio masculino do método ou dos meios hábeis. Ele é empunhado na mão direita, ou mão masculina” (*).
A estrutura de dorje duplo: as duas extremidades representam o método e a sabedoria atuando em harmonia. A esfera central simboliza o vazio, a fonte de toda a existência. Os motivos que reproduzem a flor de lótus significam pureza, crescimento espiritual e energia divina. As oito pontas (hastes) representam o Nobre Caminho Óctuplo, o caminho da libertação. Tudo isso tem significado e função energética. Diante disso, um objeto falso como o que ilustra este artigo não cumpre nenhuma de suas supostas funções. É uma lástima que isso esteja ocorrendo. A ocupação do Tibete foi uma devastação no conhecimento milenar daquela civilização e é isso que toda guerra produz, destruição.
Espero que a nova China, desenvolvida, volte a produzir produtos de alta qualidade, mesmo com motivos tibetanos, para que todos se beneficiem da beleza daquela cultura.
(*) The Encyclopedia of Tibetan Symbols and Motifs, by Robert Beer, Shambhala Publications Inc., China, 1999, pag. 233

