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Por José Joacir dos Santos, psicoterapeuta e jornalista

Uma cantora famosa no país e até fora do país, dedicou a vida inteira em inúmeros álbuns publicados com música destrutiva, daquele tipo ”você me abandonou”, “você me traiu”, “amo mas você não me ama”. Alguns de suas canções até que se pode ouvir uma vez ou outra, mas a marca dela foi sempre valorizar o sofrimento. Nunca tentou outro estilo ou colocar algo de feliz em suas canções.

Com 25 anos de carreia, na véspera da explosão do vírus, ela deu seu último show em Manaus. Disse para entrevista na tv que saiu daquela cidade “desesperada”, “abatida” com a ideia de isolamento social. Teve que procurar ajuda especializada de terapia e está em casa “louca para fazer show em São Paulo”, nem que seja dentro de um caro. Na entrevista, o rosto dela faz caretas devido as muitas plásticas que fez. Diz que sente muita falta de abraçar pessoas, como aqueles cidadãos que resistiram ao isolamento, preferindo arriscar suas vidas nas ruas e contribuir para as mais de 60 mil mortes (julho de 2020).

De acordo com inúmeros registros literários, o cultivo prolongado de ideias destrutivas acaba se materializando no corpo emocional. Qualquer vento derruba. Mesmo sendo uma intérprete/compositora, a mensagem das canções, e de tudo o que você pensa e fala, é recebida pela memória celular como verdade. Como o sistema celular trabalha a favor de si mesmo, devolve a tristeza e o desespero na primeira ocasião que se apresenta. A medida é a pessoa quem decide.

Aquilo que já conhecemos sobre a necessidade de alimentar o nosso ser de pensamento positivo, não importa em que situação, de uma forma ou de outra, em uma situação ou em outra, volta e se materializa. O sistema celular do corpo humano, que influencia os demais corpos, servido como base do banco de dados, não faz julgamentos. Não sabe se o conteúdo que o proprietário do corpo desenvolve é bom ou ruim. O seu trabalho é registrar a informação recebida e processá-la, de acordo com os comandos mentais do indivíduo.

Diante de uma pandemia, o sistema traz toda a memória de sofrimento, desespero, do medo pela sobrevivência. Diante de uma situação de felicidade, traz a memória da alegria, que encanta e renova todo o sistema.

A maestria sobre esse banco de dados invisível precisa ser um objetivo de vida. Não se consegue da noite para o dia, mas o bom dessa história é que não é impossível. Todo ser humano é passível do envelhecimento. A beleza física e a juventude enfrentam o destino.

A qualquer momento podemos começar a atuar positivamente sobre nosso sistema de memória celular, aprender a lidar com o lixo emocional que vier à tona, superar todas as energias contrárias que se grudam (vindo das pessoas, lugares, pandemias) e fortemente se aliar ao progresso individual espiritual, que é a casa da felicidade física.

A fama, o palco, as luzes, os gritos da plateia… Tudo é muito emocionante, lindo, mas é coletivo. Cada indivíduo está expressando somente a si mesmo com aquilo que recebe do artista. E o artista pode estar transmitindo um mundo contrário ao seu, lá no íntimo, uma falsa alegria que se baseia na fama, no palco, nas luzes, nos gritos. Se apegar a uma realidade fora de si mesmo é a receita para um desastre emocional futuro e muitos artistas caem nesse buraco.

Uma vez um cliente famoso me ligou e disse que estava arrasado. Perguntei o motivo e ele disse: ninguém me aplaudiu hoje.

Não precisa ser artista para chegar a esse ponto. Tudo na nossa vida depende da educação que recebemos da infância à adolescência. Todas as informações, percebidas ou não, farão parte da sombra – o grande saco emocional. Se o indivíduo não conseguir processar, por questões de saúde mental ou outra desventura, a roda da repetição do carma é o caminho sem saída.

A experiência pessoal na infância e na adolescência, gerada pela família/meio-ambiente onde a pessoa é criada/educada pode adicionar traços negativos ou positivos para a personalidade, independentemente do carma a ser cumprido (e a memória celular do espírito eterno). Brincar de bonecas ou de carrinho de plástico; ser humilhado ou endeusado como príncipe ou princesa; ser abusado verbal, física e sexualmente; ser submetido a lavagem cerebral religiosa ou ideológica ou aos “bons costumes familiares”…

Alguns de adaptam e esses vivem melhor, embora tenham que lidar com o saco da sombra mais dia, menos dia. Outros se deixam absorver sem questionar e são capazes de se submeter a qualquer coisa para se sentirem aceitos. Alguns copiam tudo, o que piora o sistema de armazenamento da memória celular e da sombra. Esses terão dificuldade de lidar com a verdade universal, a coerência, a razão, o bom senso. Outros resistem sem lutar e assim podem morrer a cada minuto de suas fragilizadas vidas. Há ainda aqueles que o desequilíbrio emocional vai atrair para suas vidas pessoas desequilibradas e destrutivas, capazes de ameaçar suas vidas e a dos outros.

A pandemia do Covid-19 tem sido um momento único na humanidade. Nos dá a oportunidade de ver, na tela da tv, todos esses personagens desfilando, especialmente autoridades, governantes, pessoas que diziam que era apenas uma gripezinha e suplicam por uma vaga na UTI. Muitos adicionaram um grande fator de agravamento de seus desequilíbrios: o poder político e ideológico. Diante de tudo isso, só nos resta olhar para o nosso próprio espelho e cuidar de nós mesmos no momento presente. O momento é de se apartar de tudo e de todos, como quem fica em casa e tenta fazer das quatro paredes o melhor lugar do mundo. Ë preciso ter coragem e forças para acordar, olhar o próprio rosto no espelho, e fazer as melhores escolhas para a vida diária.

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